domingo, 6 de novembro de 2011

Identificando meninos e homens


E foi aberta a temporada de descobrir quem é quem.
Confirmar o que era óbvio, se surpreender com o que era quase imperceptível, se encantar com mini fofuras inesperadas. Sou seletiva, mas dei folga para o meu filtro, porque agora existe um filtro natural fazendo isso por mim. Confesso que é um tanto confortável, não fossem as decepções.
Eu nunca consegui sair completamente da merda nesta vida (ok, ninguém deve conseguir se libertar de todas as merdas no mais alto grau da totalidade, até porque nem teria graça), mas passei por níveis de merdice, o ápice da parte boa foi tipo merda de leve, merda de fácil administração. O ápice da parte ruim... Deixa pra lá.
Tenho orgulho da minha capacidade de manter os principais mesmos valores independente do tamanho da merda que me encontro, na verdade isso não é o máximo, mas vivendo percebo o quanto é raro, que merda ter que se orgulhar por uma coisa que deveria ser básica, nada além de uma obrigação enquanto ser vivente.
E renovo o infindável nojo que sinto por quem muda radicalmente de acordo com a posição que ele ou você se encontra na escala da merda, gente que não é capaz de ter outros encantamentos além do umbigo. A evolução dos seres humanos acontece todo dia e a toda hora, preferem ignorar, ok, contemplem da minha sincera piedade.
E lá vou eu para uma nova etapa, que quero crer terá um nível baixo de merdice, tive preguiça de sair da zona de conforto, - já que fizeram isso por mim -, vou atrás daquilo que realmente quero fazer, - e acho que consigo fazer direito.
Foi deveras justa enquanto durou a nossa troca, troca de dinheiro por trabalho de quem sabia o que estava fazendo.
Obrigada e de nada por tudo.

sábado, 3 de setembro de 2011

Tatuagens, chinelas, amigas, eternas e dois cigarros fumegantes


Quando o respeito é mútuo.
Quando a resposta é óbvia.
Quando o contar é certo.
Quando a pessoa faz parte.
Quando o nome de uma lembra a outra para os outros.
Quando o silêncio não incomoda.
Quando as contas se perdem.
Quando a fidelidade impera.
Quando a intromissão não invade.
Quando seus podres não são usados contra você.
Quando a crítica não envenena.
Quando a qualidade da outra não te acelera.
Quando a felicidade da outra te faz abrir um sorriso.
Quando a decepção da outra te faz agarrar um ódio.
Quando o ombro é necessário.
Quando a ausência faz falta.
Quando a diversão é garantida.
Quando o dialeto é próprio.
Quando as outras amizades não dão margem ao ciúme.
Quando o lugar no coração e na vida eterniza.
Quando o veneno dos outros vira piada.
Quando a competição é nula.
Quando você curte pinto mas nem liga que te chamem de sapa.
Quando o texto de estréia do seu blog é sobre ela.
Quando você só falta pedir um autógrafo de tão fã.
Só pra resumir...
Amiga, eu te amo pra caralho.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Essa oportunidade é única


Venham, venham! Estou anunciando espaços livres no meu coração.
Não no sentido amor carnal. Não. Esse não anuncio. Anuncio vagas no estacionamento apenas.
Estou aberta a ser legal com as pessoas, a deixá-las entrar na minha vida. Estou aberta a gostar. A poder passar com alguém(ns) o pouco do tempo que nos sobra - que parece muito tempo quando se está sozinha.
Não sei se estou feliz ou triste. Não sei se estou ansiosa bom ou ansiosa ruim. Não sei se estou esperançosa ou cética demais. Não me esforço pra ser nada além do que eu não seja.
No momento o que importa é que minha vida está ficando mais interessante. Não sou mais aquela pessoa resmungando que a vida foi toda filha da puta, e que várias vezes pensei em dar um fim (à filhadaputagem, não à vida) e isso a meu bronco e estúpido modo. Mas não. Eu soube esperar. Eu soube me desesperar driblando o acelerador do meu coração.
E minha vida começa a ter alguma cor. Só faltam as pessoinhas para ocupar as vagas vazias.
Falta com quem dividir isso tudo. Todo dia. Minha vida inteira me acostumei a falar da minha vida, mesmo quando não queria. Não dá para deixar de ser isso de uma hora para a outra. As vagas estão abertas até eu dizer chega.

Aiai. Estou cheia de amor para dar.

sábado, 13 de agosto de 2011

O melhor pai do mundo para essa bastarda

Waldemar Lauzimar Reginaldo Deosol Medrado de Oliveira Teófilo Silva Neto.
São nove! Vovó foi atroz.
Vulgo Vavá, negro, paraplégico, tinha 49 anos quando conheceu minha mãe, grávida de mim, ficaram amigos, ele abraçou o rojão.
Baiano, nascido em Rio de Contas, foi para São Paulo aos 18 e entrou para a Polícia do Exército.
Numa simulação de guerra, um tiro na espinha, ficou paralisado da cintura para baixo.
Aposentou-se por invalidez aos 21 anos.
Em São Paulo ele fundou a APDFB - Associação dos Paraplégicos e Deficientes Físicos do Brasil, batalhava doações de grandes empresas, e tinha um jornal.
Bitolado em preconceito, também pudera, - preto, pobre e paraplégico -, o cara deve ter passado poucas e boas.
Exagerado, colocava isso a frente, preconceito era o parâmetro para definir o caráter de alguém.
Fã da Grace Kelly, a biografia dela foi o primeiro livro que li, depois da Cartilha Caminho Suave.
Sempre soube que ele não era meu pai, uma branquela-loira-do-olho-azul, eu ouvi muito isso por aí, mas nunca fui intrépida a ponto de tocar no assunto com ele, até porque PAI É QUEM CRIA.
Chegou o dia dessa conversa.
Sensato, prudente, responsável, seguro, nobre, inabalável, magnânimo. Contou toda a história sem uma gota de julgamento para com minha mãe.
E quando eu reclamei do desamor dela, ele atribuiu ao vício, maldito vício.
Solícito que eu lidasse com aquilo como se ela tivesse uma doença, uma doença com crises, ataques.
Solícito que eu tivesse em mente que ela padecia de muito sofrimento, mesmo sem nunca ter me dito.
Ele me bastava. Mas valeu a intenção.
Nem tive muitos amigos na infância. Sabiamente curti ele ao máximo.
Me recordo de coisas que ele disse, com as palavras que ele usou, tá eu sou literal, mas tem coisa que marca.
Insuficiência renal, hemodiálise, não poder tomar água. Não desejo nem pro pior filho da puta.
Em setembro de 91 ele ficou mal de vez. Foi internado no Hospital das Clínicas, no bico do corvo.
Complicações e a retirada de um rim.
No dia 14 de outubro consegui visitá-lo, ele saiu da UTI e eu pude entrar.
Era aniversário dele. 60 anos. Fazia mais de um mês que não nos víamos. Eu sucumbia de saudade. Estava magro, aparentemente bem. Conversamos um pouco. Ele disse que logo ía sair dali.
Mas piorou e acabou voltando para UTI.
Exatos dois meses após a minha visita, ele se foi, dia 14 de dezembro. Eu tinha 11 anos.
Meu tio me contou um dia depois. Lembro como se fosse hoje.
Era domingo. Ele colocou a cadeira dele mais perto da minha. Segurou minha mão com as duas mãos. Comecei a desconfiar que era isso.
Eu já tremia quando ele falou:
- O pai morreu.
- ...
Ele foi sepultado nesse dia mesmo, no cemitério da Vila Formosa.
Dói até hoje, mas sobrevivi.
Não fico imaginando como teria sido a minha vida sem ele, prefiro acreditar que tinha que ser assim e foi assim.
Ele foi embora muito cedo, mas deu o ar da sua graça na minha vida, fez ela ter graça e me nomeou Grace.
Não posso reclamar de nada. Tenho que agradecer todos os dias em voz alta, vai que alguém escuta.
Já se passaram quase vinte anos, o próximo mês de outubro será o vigésimo mês de outubro que, no dia 14, não falo feliz aniversário para ninguém.
O mesmo ocorre com dias dos pais, tenho que me esforçar para que seja apenas mais um dia como a maioria, mais um dia para carregar nas costas. Mas nunca é.
São dias líquidos e as gotas são de saudade, uma saudade sem fim, e por isso uma saudade serena e doída.


Esse cara simpático e charmoso da foto, é o cara que soube praticar o mais sublime amor ao próximo, mesmo com todas as desgraças da vida, escolheu amar a amargar. Escolheu não julgar, escolheu perdoar, escolheu fazer diferença na vida de alguém.
A garotinha, hoje com 31 anos nas costas, se tiver parte boa, provém dele. E quando ela apronta, ainda teme em desapontá-lo.
Pai, por mais que eu tente falar ou escrever algo, me faltam palavras para mensurar o quão grata eu sou por ter tido a honra de conviver com um anjo como você.

domingo, 26 de junho de 2011

Um dia vou publicar essa pérola


Acredito em caminhos tortos, mas não em errados. Nem em certos. Apenas espertos ou burros. Para caminho não se dá nota. Porque notas têm que partir de uma certeza absoluta e ir baixando quanto mais se afasta disso. Só que ninguém sabe de nada, ninguém tem o direito de saber mais, nem a capacidade.
Ninguém entende quando choro estando tudo, tudo bem. Perdidamente apaixonada pelo entardecer vermelho. Amante da lua, até quando ela míngua.
Tem gente que sabe onde vai estar daqui a um mês e realmente sabe. Eu não sei. Até sei, mas não estou planejando isso.
Por mais que eu tenha objetivos, não traço planos, não sacrifico meu hoje em nome do amanhã, porque se amanhã eu não estiver mais por aqui não corro o risco de ficar sem os dois.
Eu prefiro ser surpreendida no meio do caminho. Mudar meu curso. Parar na metade. Voltar pra dar mais um beijo. Cortar caminho. Acender um cigarro. Me perder, pedir informação. Reparar nas placas, chutar as placas, ser pega pela polícia, ser presa, chorar. Depois rir de tudo e vir contar.

(trecho da tentativa literária que finalizei em 2006)

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Ironia hereditária


- Quem é?
- Sou eu.
- Nossa...
- Eu sei o que você estava pensando, mas estou por aqui ainda.
- Sim, eu pensei, tive quase certeza.
- Pois é. Mas eu sou vaso ruim.
- É... Isso você é mesmo.
- Rs, ou você é muito previsível ou eu te conheço muito mesmo.
- Pior que conhece.
- Pior por quê? Faz mais de 10 anos que não nos falamos, você deveria ficar feliz.
- Exatos 13 anos, fez na semana passada. Ficar feliz porquê? Gosto da minha privacidade... E você, teve mais algum filho?
- Não. Você teve né.
- Tive, menina.
- Ahhh, é a Catarina?
- Não. Julia.
- Poxa, eu tinha tanta certeza que seria Catarina se fosse menina.
- É então, eu também tinha. Mas acabei cedendo. As pessoas cedem, sabe.
- Bom. Você deve imaginar o quanto está sendo difícil te procurar depois de tanto tempo. Eu quase liguei muitas vezes, cheguei a ligar uma vez só que você não atendeu. Mas hoje decidi. Eu queria saber como você estava. Eu sempre penso em você. Eu acho que penso em você todos os dias.
- Eu também penso. Canto até parabéns nos seus aniversários.
- E eu fico imaginando aquela sua cara frustrada quando não tem 29 de fevereiro e você tem que comemorar dia primeiro de março. Seu pai não devia ter feito isso.
- Claro que devia, ele acertou em tudo que ele fez, nem depois de morto me deixou na mão.
- Eu deveria ter escrito essa conversa antes de te ligar e registrado em cartório pra poder te provar o quanto antecipo suas reações, chega a ser um dejavu.
- Irônica.
- Igual você.
- Ué, eu que posso dizer isso, é a filha que puxa a mãe, não o contrário.
- Não muda mesmo. Tu ainda fuma?
- Fumo. Você que me ensinou, lembra?
- Lembro, acho que lembro. Tem café aí?
- Tem. Você sabe onde eu moro?
- Sei.
- Então vem.
- To aqui na frente.

(pequeno memorando de um diálogo disléxico entre meu afeto e o impossível)

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Imensos detalhes


Grande parte de uma existência resumida na busca pelo domínio das situações. Cheia de razão e sozinha.
Ocorreu-me a iluminação súbita de que vivo melhor e mais feliz estando desprovida de certezas e de razões.
A verdade não existe, o que existe são versões, essa é a minha versão. Dá licença?
Quanto a tal da felicidade, conheço só de vista, cruzo com ela vez ou outra, sempre nos detalhes, é impressionante. Talvez seja esse o motivo que me faz gostar tanto deles, e das entrelinhas, e dos pormenores, e das reticências, e dos etecéteras...
Devoro todos eles em tempo real, e quando a minha cabeça que não pára encana que pode ter deixado algo passar, voltamos as duas à cena do crime, e assim fazemos a reconstituição na busca pelo detalhe perdido, vai que tem uma felicidadezinha embutida justo naquele.
A felicidade está nas pequenas coisas, já dizia não sei quem não sei onde, tome nota.
Até o mais fervoroso praticante do desapego tem algo  “indescartável”, um objeto, uma peça de roupa, um livro, algum calçado, ou um brinquedo, enfim, pensa naquela coisa que você já deveria ter dado fim há muito tempo, mas não consegue fazê-lo por uma questão de apego emocional inexplicável. Ou então pense numa música que você gostaria de cantar bem alto ou numa dança daquelas desengonçadas que você gostaria de fazer, mas não faz em público porque se sente proibido pelas regras não escritas dos bons modos. Foram tentativas de exemplificar a percepção do detalhe. Só valem para os seres sensíveis o suficiente para detectar pequenos momentos de felicidade que silenciosamente os cercam.
Pare de pensar tão grande, tão longe, tão caro, pode não dar tempo. É um desespero pela fatia do bolo, e o pior é que a maioria quando consegue uma, nem come direito, mal sente o gosto e já parte em busca da próxima fatia, afinal de contas existe um bolo inteiro a ser comido! Eu to bem contente aqui lambendo a faca e o fundinho da vela.
Nem me importo de parecer acomodada porque não sou, só não vejo propósito nessa vida que muitos ostentam orgulhosos, sem tempo para nada, agendando uma ida ao banheiro, perdendo todos os detalhes, encavalando uma coisa na outra às vezes sem nem saber direito o porquê, mas que parece ser o máximo pelo simples fato de ocupar tempo.
A genialidade não se importa com o suor do seu esforço, ela simplesmente escolhe alguns e os agracia. Portanto, meu amigo, contemple o ócio.
Gente que tem vergonha de não ter o que contar na segunda-feira, tem vergonha de assumir que não fez nada, que ficou a toa, gente que fica invisível no MSN na sexta à noite para não dar o braço a torcer... Pra quê mesmo? - Certamente não repararam nos benditos dos detalhes. Fora os "controlados" mãos de vaca, com pena de gastar dinheiro, passam vontade e guardam a grana. Não vejo utilidade melhor para o dinheiro além de torrá-lo.
É o tal negócio das certezas e das razões que abordei no início, não tenho razão, não quero mais tentar ter, não quero influenciar, suscitar a reflexão a partir de outro viés talvez, enquanto fico daqui botando reparo nos detalhes, sem dinheiro guardado nem para comprar um cotonete.
E petulantemente, como eu bem sei ser, começo a desconfiar de que sou uma boa alma.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Boliche de reis

Gente formada, pós-graduada que mal sabe escrever um e-mail, isso porque tem corretor ortográfico no Outlook, mas decerto que alguns não seriam capazes de ativá-lo sem ligar no help-desk. Ai que dó, que dó, que dó dessas fumiguinhas.
Passamos mais tempo com essas pessoas do que com a nossa família ou com quem gostaríamos de estar, não importa, com eles é que não era.
Esse mundo corporativo dá nojo, mas às vezes acontece de prestar, às vezes acontece de ter gente boa querendo gente tão boa quanto, ou até mesmo gente boa disposta a desenvolver gente quase boa, tornando-as boas sem contestação, formando assim muitas coisas boas, e neste caso, eu não deixo de continuar me sentindo um número, mas ainda assim prefiro, porque com gente boa trabalha-se mais, mas se aprende muito, e essa, sem sombra de dúvidas, é a melhor das escolas.
Daí me aparece uma tal de reestruturação, necessária sim, mas não desse jeito, pegando a liderança de uma área inteira e apertando delete, enter.
E não bastou um dia para começar a prostituição (as pessoas se prostituem no trabalho, é o que dizia uma “membra” daquele seleto grupo das boas, que trabalhou comigo e não trabalha mais exatamente porque não quis aceitar o michê), como num passe de mágica as pessoas mudam umas com as outras, e com elas mesmas, e com tudo a sua volta, uma disputa deprimente, morro de vergonha alheia, hipócritas duma figa, - eu faço parte desse mundo, mas me recuso a fazer parte dessa corja. Mato vários deles mentalmente todos os dias, com requintes de crueldade.
Um querendo foder o outro, em todos os sentidos, é gente querendo mostrar mais trabalho pra ganhar vantagem no novo quadro, muitas vezes um trabalho ruim ou feito por outrem. Eu não sou contra quem sabe se destacar e mostra seu trampo, eu faço isso quando dá, mas existe uma coisa chamada ética que é bem parecida com outra coisa chamada honestidade, será que é tão difícil incluir essas coisas nesse mundico? E não estou dando conselhos, não estou me dando bem, sou uma fudida que também pode estar com o pé na caixa econômica por conta dessa tal de reestruturação que está havendo aqui, mas a minha verdade está intacta, preservada e não abro mão, eu mudo de idéia sempre, mas a essência é uma só. Sejamos coerentes né gente?! Façavor.
Um dia vou ter cú pra me livrar desse mundo de trabalhar para os outros, mas hoje não tenho, não posso, tenho contas, casa, filha, não dá pra arriscar, mas ainda assim penso nisso.
E essas piores pessoas, essas que não demonstram quem são e quando você descobre já é tarde, já passou você ou alguém pra trás, elas não tem amigos, um que seja, - também não tenho mil amigos, sou anti-social, não saio de casa por qualquer coisa, sou serva da minha fronha com muito orgulho além de apreciar minha própria companhia, mas tenho amigos, poucos e raros e rasgados. E após uma breve observada nessas fumiguinhas, vi que elas geralmente não têm um amigo sequer, são fumiguinhas sozinhas, que dó, que dó, que dó.
E de repente as referências se foram, senti uma pontinha de “orfãzisse”, e certa tristeza, eram dos bons, lutaram juntos por um objetivo que acabou morrendo antes mesmo de chegar à praia, numa marola qualquer, eu disse tristeza pra não dizer compaixão, mas foi o que verdadeiramente senti, não pela situação financeira dessas pessoas que, sem dúvida nenhuma, é muito mais favorável do que a minha, mas sim pela frustração, pela impotência designada e porque não dizer, pela ingratidão que lhes foi prestada.
Mas eu estava errada, porque hoje, olhando pra isso aqui, eu sinto compaixão sim, por nós, que ficamos.

Link para o vídeo da “fumiguinha”, o mais visto do mês.

domingo, 8 de maio de 2011

Para minha cria


Desde o primeiro instante eu soube que você era uma menina. Desde aquele instante que você invadiu minha barriga e meu coração e minha vida. Começaram duas vidas naquele dezesseis de agosto, a sua e a minha, uma nova vida, com outra vida pra agora sim fazer sentido. E a visão também mudou, eu vejo o mesmo, mas enxergo diferente, e tudo foi ficando menos importante, além de você com o macacão vermelho.
E passei a sorrir mais, e passei a não me esforçar mais para sorrir, e passei a gostar do meu sorriso, vendo o seu sorriso, igual ao meu, pelo menos o sorriso, sorriso e sobrenome em comum é o que temos em comum, não, tem mais coisas só que eu não sei falar, ninguém deve saber, e você tem sobrenomes além do meu, e só eu sei o quanto agradeço por isso, e por serem aqueles, os sobrenomes. Sua cara me sorrindo tem o efeito de um abraço quentinho, gostoso, com cheiro bom e demorado.
Eu não sei se consigo retribuir o que recebi de você, eu creio que não, e sempre penso nisso, não quero parecer ingrata, mas não consigo pagar, veio sem a etiqueta do preço, devem ter tirado a etiqueta na hora de embrulhar pra presente no macacão vermelho. Talvez não seja uma dívida então, talvez seja mesmo um presente, mas e se não era pra mim, que feito foi esse que me fez merecer, fico intrigada, e na dúvida, quero retribuir.
Prometo me dedicar aos seus lindos cachos, hidratação com touca térmica para deixá-los sempre macios e sedosos, os lindos cachos. Prometo pentear com cuidado pra não doer quando estiverem embolados porque você lavou prendeu e deixou secar sem pentear. Prometo cortar as pontas a cada dois meses, quando a lua estiver na fase crescente. Darei-te as xuxinhas, tiaras e presilhas para enfeitar os cachos. E se um dia deixarem de ser cachos, prometo manter toda a minha dedicação aos seus ex cachos. E quando, lá na frente, você quiser afogar alguma mágoa em um balde de cerveja ou algo que o valha e ficar de porre, eu prometo que seguro seus cachos pra você vomitar.
Quando acorda parece um leãozinho, minha querida leonina com ascendente em leão. Que me acorda com a voz rouca me pedindo café com rosquinha, prometo que vou levantar todas as vezes, sem demora, e vou enfeitar o prato formando desenhos com as rosquinhas.
Você me desenha de canetinha com corpo de palito, nós duas de mãos dadas, sorrindo, nossa casa e uma árvore que a gente ainda não tem, gosto de todos, emolduro alguns, guardo todos, guardarei pra sempre seus lindos desenhos. Ganho o dia com seus e-mails, com suas frases trocadas, juntar o “pronto e acabou” com o “ponto final” é otimizar a vida. Me rasgo de orgulho da sua esperteza, de seus comentários cheios daquele bom humor ácido tal qual o meu, e quero muito estar lá quando o bom humor lhe faltar ou quando a acidez for contra você, vamos rir juntas pra neutralizar, adocicar a nossa vida ô, como diria Beto Barbosa.
Quero me dopar dessa pureza que você, naturalmente, tem e que, naturalmente, deixará de ter, e não tem jeito, não tem como ser puro por muito tempo aqui onde estamos. Me dopar da sua falta de julgamentos e preconceitos, do seu gostar pelo simples fato de gostar, ou não. Da sua euforia boa, da sua euforia ruim, quando me interrompe e eu fico brava, e você fica brava porque eu fiquei brava por isso, pura pró-atividade, teimosia é persistência, eu sou assim também, e as vezes me dou bem por ser assim, na maioria das vezes. Mas eu quero te poupar, quero me antecipar, quero que descubra que existe um mundo podre antes de fazer parte dele, já que vai ter que fazer parte, que seja mais preparada, ou menos despreparada, e assim vou tentando retribuir.
Assim vou tentando, deixando você usar meu batom (só o clarinho) mesmo achando que você não precisa pra ficar mais bonita. Fazendo um miojo pra você (só de vez em quando), mesmo sabendo que não se trata de uma alimentação adequada, mas eu sei que você gosta e fica feliz. E vou fazer polenta pra você, e escolher o sorvete de flocos quando for comprar do potão, ou comprar dois potinhos, quando eu quiser muito o de chocolate. E vou comer o lanche pequeno igual o seu que vem com brinquedo, pra você ganhar dois brinquedos, quando o brinquedo for muito legal, porque quase nunca é muito legal.
Menina dos olhos que iluminaram minha vida e me guiaram para um caminho deveras melhor, que me toma aquilo que eu tenho de melhor e que jamais iria descobrir que tinha isso se você não estivesse aqui. Vou até o fim tentando retribuir, e enquanto esse fim não chega, jamais se esqueça que estarei aqui. E pronto final.

domingo, 20 de março de 2011


Ela tem gosto requintado. Gosta de cinema, doce de leite, Bukowski, Raul, patchwork, barba, piercing, marlboro, Janis, sofá, Citybar, cachos, Side Walk, Courtney, Coca-cola, Johnny Depp, Los Hermanos, Bjork, Puket, Almodovar, Woodstock, pacatos, Cash. Nada surpreendente saber que ela gosta de mim.
Sem protocolos, sem blá-blá-blá, sem dedos, sem falsas demagogias baratas, eu sou fã.
Chora quando tem que tomar soro, chora quando assiste aquelas comédias românticas que, convenhamos, borrifam a esperança de qualquer quase-balzaquiana-solteira.
Sofre por um amor que não tem. Homens, atenção, ela está sozinha, avulsa, solteira, alone, encalhada, pega-ninguém, como queiram - anyway - considere esse fato com muito mais afinco caso seja um belo gajo barbudo, de cachos e solteiro, porque eu chuto alto. Vai lá e não vai se arrepender, e não precisa me agradecer. Só não fala muito com ela logo pela manhã e nunca peça um trago do cigarro - e essa parte do cigarro é plágio mesmo (mas não tenho apreço por você, que só dá mancadas. Rá!) 
Quando precisei morar foi normal, natural, necessário. E quando deixei de morar também, o que a torna realmente diferente e enorme, e sei disso com propriedade porque sou uma fudida que já morou muito de favor nessa vida. E quando você sai, anulando todas as chances de pequenices, os pequenos incontrolavelmente sofrem, por isso é sempre tumultuado sair.
Não quero convencer ninguém. Porque sei que ninguém é capaz de genuína e convincentemente descrever alguém quando se ama esse alguém.
Não curto mulher, meu negócio é homem - sabe o vazio a ser preenchido? Então, eu tenho, e ela também. Estranhos que nos vêem sempre juntas, não somos um casal - e vão à merda, e se a gente fosse? Preconceituosos duma figa!
Achei que nunca mais ia parar de chorar (e olha que não sou dessas) quando sonhei que ela tinha morrido. Foi engraçado quando contei do sonho (e olha que sou bem dessas).
As bolinhas, malditas bolinhas, não merecem atenção agora, deixa.
Com ela me protejo do que existe de ruim tentando contaminar o que tenho de bom, que não é muito, mas fica maior convivendo com alguém assim, dono de tudo que julgo essencial num ser humano.
Nossos códigos, nossas caras, nossos flatos, nossos papeles, nossas chinelas iguais, nossas gargalhadas de doer as bochechas, nossas dancinhas, nossos quinze reais, vinte reais, nossos porres, nossa sorte é que nossos cigarros não falam...
Ela sabe que podemos gritar ou ficar mudas ou qualquer outra coisa no meio disso, que continuaremos unidas por uma linha invisível mas extremamente forte. Um imã sem as explicações físicas de um imã.
Ela quase sempre adora minhas coisas, e eu adoro quando ela adora as minhas coisas, porque é tudo de verdade - e se não for, por favor, não me conte porque não aguentaria.
E eu vou pedir que ela fale “tarracha” como só ela sabe, e vou pedir também um autógrafo, porque eu sou fã.