sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Sim, eu voltei

O sistema me chama, não queria, não quero, não gosto, mas pari, duas vezes, ainda bem, e como tudo nessa vida tem um preço - cá estou - procurando emprego, capitalismo selvagem de merda.

Fora isso, A vida tem cheirado a flor do campo nos últimos dias, primavera começou ontem... deve ser isso, (mentira, depois conto). 
E eu, como boa auto-boicotadora que sou, acho que os desastres estão à espreita para compensar as minhas sortes na vida e deus está louco para fazer tudo ficar 50%. Enfim, ando me permitindo bastantinho, claro que estou feliz. Tenho dormido melhor.

Estou quase suportando a ideia de que não há nada me esperando. Que a vida é isso que acontece todo dia e vez ou outra o vento faz mudar de direção. Um pouco mais serena. Nunca o suficiente. Mas mais ou menos convencida de que é isso aí – e, se é isso aí, que eu possa aproveitar sem esperar nada lá na frente. 
Continuo, no entanto, sorrindo para coisas pequenas que ninguém mais percebe, tenho certeza. 

terça-feira, 11 de março de 2014

...

Post pra não perder o blog.


Estou bem, estou feliz, esperando meu segundo filho, Raul, chega no comecinho de maio. No aguardo.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Alea jacta est

Algumas coisas simplesmente acontecem na vida da gente, sem planos, explicações, data marcada, razão de ser.
Em muitos casos de pleno encantamento inicial, mais cedo ou mais tarde vem a decepção, ou a percepção de que não era exatamente aquilo. Enfim...
O importante é aproveitar, raspar o prato, a intensidade do momento não tem a ver com quantidade de tempo, mas sim com a disposição dos envolvidos em dar o melhor de si, fazer o que é preciso para se tornar importante e inesquecível.
Já diz o senso comum, que para sempre é tempo demais, e eu sou a primeira a concordar, é mais cômodo viver assim.
Covardia desejar não ter conhecido alguém sensacional, por medo de sofrer lá na frente. Covardia pisar no freio do presente, por medo do que nos espera no futuro.

Adoro e sou grata a quem me faz bem, seja por um instante, seja por uma vida inteira.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Luka


Quando eu digo que sou uma pessoa de sorte, eu não estou exagerando. Até aqui, tive uma vida salpicada de gente boa, que gosta de mim, que me ajuda, que me fazem - vez ou outra, sentir um quentinho no coração, como hoje quando li isso no meu mural do facebook:

“Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos. (O Pequeno Príncipe). As pessoas mais inesquecíveis aparecem em minha vida no "susto"... E foi assim que a Grace surgiu, de repente, num momento de saída à francesa, lá estava ela, parada na minha frente, falando sem parar. Seus olhos transparentes, janelas escancaradas pela alma sorriam, gargalhavam na minha frente. Suas palavras foram se tornando mais baixas, sussurros, até sumirem de vez... Eu só conseguia ouvir as gargalhadas de sua alma. Lá estava eu, no momento certo, na hora exata, babá de marmanjo, carranca, um bando de gente estranha se misturava com outro bando de rostos conhecidos, e ela chegou, na hora da novela, sorrindo em todos os poros, sorrindo na alma, trazendo sua graça, seu nome, seus rabiscos e sua luz. 
Esta é a Grace, quando longe se faz perto e quando perto se faz farol."

(Aeeew! O texto saiu! Veio no susto, assim como você na minha vida)

Luka Hipólito

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Resoluções de fim do mundo


Pra mim, na minha humilde opinião, esse negócio de fim do mundo é lenda. O Tim Maia deve estar se revirando no caixão por conta desse assunto envolvendo o nome dele.
Mas nada como uma polêmicazinha marota para dar uma animada nas redes sociais em pleno fim do ano, dá uma neutralizada naquelas mensagens chatas clichês de natal com Papais Noéis e renas e muita neve e todo mundo se amando e bla bla bla, afinal estão todos ocupados com as piadas referentes ao famigerado fim do mundo, acho válido, tem um pessoal que exagera mas enfim, tudo é válido.
O que eu realmente acho legal de tudo isso é a reflexão que se faz, ou que pelo menos deveria ser feita, é meio como aquela reflexão que fazemos quando alguém morre jovem.
Lhes digo que estou fazendo, e nem seria necessário um fenômeno de fim de mundo para isso, porque o fim de todos nós acontecerá de fato, a qualquer momento, mas a morte dá mais medo que o fim do mundo parece.
A minha reflexão me deixa deveras satisfeita, se é que você quer saber, não passei muitas vontades, tenho uma filha linda e saudável, não amo trabalhar - mas trabalho direito e gosto do que faço -, nunca tive problemas sérios de saúde, não guardei nenhum centavo, bebi um monte, dei bastante, curti música boa, perdi bem pouco tempo de vida com discussões/brigas, fiz amigos, ri muito, ri o tempo inteiro, ri de tudo e vou continuar rindo, até algum fim.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Vivendo sem check-list



O que você está fazendo aqui? É, você mesmo. O que veio fazer? Você sabe?
Eu não sei se eu sei o que vim fazer, juro mesmo. Passei algum tempo achando que sabia, mas vejo que me enganei.
Não é o caso de tudo estar acontecendo e eu na praça dando milho aos pombos, não é isso. Inutilidade é uma coisa, falta de planos é outra. Só me recuso viver de planejamentos, me recuso a parecer ocupada o tempo inteiro, coisa que vejo muito me indagando internamente os motivos que levam, mas enfim, quem sou eu.
Eu até já cheguei a me incomodar com o fato de não saber o que estou fazendo, o que quero fazer, onde quero chegar, essas coisas, mas hoje me sinto bem assim, é libertador, pelo fato de não ter grandes expectativas, ansiedades e nem decepções.  Se eu não conseguir, tá tudo certo, nem sei o que era mesmo.
Prefiro ser sincera comigo mesma, até porque, tenho que me olhar nos olhos todos os dias no espelho pela manhã, e sem toda essa coisa de planos, não me sinto olhando para uma pessoa frustrada.
Vendo a vida passar? Não também. Muito pelo contrário. Eu tô é vivendo a minha farra enquanto vocês ficam aí ocupados e fazendo planos.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Colorido, leve e doce



É bom e desesperador. Um alguém ali que é seu, ao mesmo tempo que não é, afinal de contas, ninguém é de ninguém. Mas é tão bom perceber que é seu sim, e que é seu porque quer ser seu, te conheceu direito e mesmo assim decidiu ser seu.

É difícil se mostrar de verdade pra alguém, não só difícil por não querer, mas também por não se fazer entender, mostrar as fragilidades e os podres, é muito foda, dá medo de perder. E é um fato, quando alguém consegue se fazer entender de dentro, nunca fica como está, ou afasta ou aproxima, eu até acho que tem mesmo que ser assim, a tal da ação/reação.

Tenho muita sorte, tenho uma relação assim, relação bônus.

Numa fase de críticas implicantes com minhas mudanças, faça-o-que-eu-faço-e-quero-senão-não-te-aceito, donos da verdade, sou livre e me sinto assim, desculpa. 

E justo nessa fase, a única que teria o direito de estranhar, se aproxima tanto de mim, de graça, e me conhece cada vez mais, e se mostra cada vez mais, é simples e certo. 

Minha boneca, minha filha, que não tem como premissa julgar as pessoas, vejo isso em muito marmanjo por aí, ela é de boa, curte as coisas simples da vida, curte os domingos a la pijama comigo do mesmo jeito que curte as viagens, uma coisa de pormenores, que desvaloriza coisas grandes, essas coisas grandes que podem e devem ser desvalorizadas. Apesar da esperteza acima dos 10 anos dela, tem a sinceridade de criança. Sem dúvida seria quem eu escolheria para ir comigo pra uma ilha deserta.

Não tenho muitos parâmetros de relações mãe-filhos, uma porque não tive, e outra porque não concordo com grande parte das relações que convivo. Sei que não tenho grandes motivos para reclamar da minha, a gente se dá bem, no mais alto grau do se dar bem. Sou uma mãe apaixonada e cheia de sorte.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Foi um sonho


Nos conhecemos numa festa, fui de cara com a sua cara.
Conversa vai, cerveja vem, encantamento mútuo, muita risada, eu sou engraçada mesmo, as pessoas dizem, e você ria gostoso pra mim.
Fomos embora juntos e dormimos juntos. Pareceu não se importar, até porque seria um babaca se isso tivesse importância.
E nos vimos de novo, e de novo, e foi uma delícia. Gostos parecidos, frases encaixadas.
De repente começa a tocar a música que eu adoro, meu celular despertando.

terça-feira, 24 de julho de 2012

:-D


“O melhor da vida é comer as bordas".
Simples, verdadeiro e contraditório. 
O melhor da vida é o que vem no em torno, anexo, sem querer.
A felicidade não é exatamente nada, é abstrata, o mais tangível que ela pode chegar seria a uma carinha assim  :-D

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Sonia


Não sei se sinto falta de você, mas sei que sinto falta do que teríamos vivido caso você não tivesse escolhido o efeito entorpecente como personalidade, também sinto falta das conversas que não tivemos, enfim, muitas palavras deixaram de ser ditas, pela falta da conversa ou pela falta da coragem.
Hoje é seu aniversário, ou não, nem imagino onde você está - na verdade até imagino. Sua ariana que me faz ficar de pé atrás sempre que descubro estar lidando com um ariano, abriu o precedente.

Eu sei que carrego muito de ti comigo, além da semelhança física, gostos parecidos, a preferência pela cor verde. Os traumas têm o lado bom, te ver sempre com o nariz entupido de cocaína por exemplo, fez com que eu nunca quisesse me aproximar dessa porra, não sou uma santa e já fiz uso de outras coisitas, mas essa em específico ficou marcada como sua, só sua.

Tá errado te julgar, eu sei disso, nem sou melhor do que você nem nada. Eu falo muito de você, percebi isso esses dias, sempre falo de você, e para os outros me refiro a ti como mãe, diferente de quando falava diretamente com você. Óbvio que falo mal, só para constar, mas fica no ar a falta que sempre me fez, a saudade, o vazio, a orfandade.

Acho que essa nossa falta de relação é irremediável pra mim, nunca vou resolver isso, e talvez eu nem queira, falar mal de você foi a maneira que eu encontrei de te ter por perto.

Feliz aniversário, mãe imaginária.

sábado, 31 de março de 2012

Aceito troca



Troca de olhares, troca de insultos, troca de idéias, troca de trabalho, troca de sorrisos, troca só aos sábados, troca de tiros, troca de dinheiro por coisas, troca de coisas por outras coisas, troca de mentiras, troca de amigos, troca de namorados, troca de amantes, troca somente com a etiqueta, troca de fralda, troca de saliva, troca-troca, troca de vantagens, troca de pneu, troca de valores, troca de fluídos, troca de favores, troca de casais, troca de figurinhas, troca de bebês, troca de marca de sabão em pó, troca de canal, troca de família, troca de papel de carta, troca de música, troca de casa, troca o óleo, troca tampinhas por brindes, troca de acusações, troca de sexo, troca de conhecimentos, troca de carícias, troca de chip, troca de informações, troca a lâmpada.
A vida é uma eterna troca, nem sempre justa.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Foda-se sua foto feliz


A culpa por não ter um bom emprego, por não ser magra, por não ter um homem decente do lado, por não ter um carro novo (no meu caso nem um velho), a culpa por não ter um belo apartamento, por não fazer viagens internacionais nas férias, por não saber outro idioma, por não ter um centavo guardado, por não ter um currículo brilhante, enfim, a culpa por não ter dado certo, ao menos para os que acham que ter essas coisas é "dar certo". 
Não é culpa de ninguém e ninguém se importa, mas existe a culpa, a auto cobrança em forma de culpa. Mas eu me pergunto, e quando nada disso mais importa? Quando esses feitos todos parecem ser indiferentes, inerentes a felicidade?
Aí vem a culpa por não sentir culpa, e junto vem o julgamento, ou o medo por saber que alguém vai julgar. Porque quando tu conquista algo, por exemplo, algum desses itens supracitados, tu é "parabenizado" pela sociedade, as pessoas te dão parabéns mesmo, vibram. Mas e quando não? Quando não consegue ou tinha e perde? O que as pessoas que te dariam parabéns fazem?
(estou perguntando, não sei também)
Sabe, eu ando preocupada com essa minha ausência de culpa, não consegui ainda saber se isso me afasta ou me aproxima dessa tal felicidade plena, mas acredito que estou no mínimo menos hipócrita.
Prefiro assumir tudo isso e ser livre, do que ser feliz na foto.

domingo, 6 de novembro de 2011

Identificando meninos e homens


E foi aberta a temporada de descobrir quem é quem.
Confirmar o que era óbvio, se surpreender com o que era quase imperceptível, se encantar com mini fofuras inesperadas. Sou seletiva, mas dei folga para o meu filtro, porque agora existe um filtro natural fazendo isso por mim. Confesso que é um tanto confortável, não fossem as decepções.
Eu nunca consegui sair completamente da merda nesta vida (ok, ninguém deve conseguir se libertar de todas as merdas no mais alto grau da totalidade, até porque nem teria graça), mas passei por níveis de merdice, o ápice da parte boa foi tipo merda de leve, merda de fácil administração. O ápice da parte ruim... Deixa pra lá.
Tenho orgulho da minha capacidade de manter os principais mesmos valores independente do tamanho da merda que me encontro, na verdade isso não é o máximo, mas vivendo percebo o quanto é raro, que merda ter que se orgulhar por uma coisa que deveria ser básica, nada além de uma obrigação enquanto ser vivente.
E renovo o infindável nojo que sinto por quem muda radicalmente de acordo com a posição que ele ou você se encontra na escala da merda, gente que não é capaz de ter outros encantamentos além do umbigo. A evolução dos seres humanos acontece todo dia e a toda hora, preferem ignorar, ok, contemplem da minha sincera piedade.
E lá vou eu para uma nova etapa, que quero crer terá um nível baixo de merdice, tive preguiça de sair da zona de conforto, - já que fizeram isso por mim -, vou atrás daquilo que realmente quero fazer, - e acho que consigo fazer direito.
Foi deveras justa enquanto durou a nossa troca, troca de dinheiro por trabalho de quem sabia o que estava fazendo.
Obrigada e de nada por tudo.

sábado, 3 de setembro de 2011

Tatuagens, chinelas, amigas, eternas e dois cigarros fumegantes


Quando o respeito é mútuo.
Quando a resposta é óbvia.
Quando o contar é certo.
Quando a pessoa faz parte.
Quando o nome de uma lembra a outra para os outros.
Quando o silêncio não incomoda.
Quando as contas se perdem.
Quando a fidelidade impera.
Quando a intromissão não invade.
Quando seus podres não são usados contra você.
Quando a crítica não envenena.
Quando a qualidade da outra não te acelera.
Quando a felicidade da outra te faz abrir um sorriso.
Quando a decepção da outra te faz agarrar um ódio.
Quando o ombro é necessário.
Quando a ausência faz falta.
Quando a diversão é garantida.
Quando o dialeto é próprio.
Quando as outras amizades não dão margem ao ciúme.
Quando o lugar no coração e na vida eterniza.
Quando o veneno dos outros vira piada.
Quando a competição é nula.
Quando você curte pinto mas nem liga que te chamem de sapa.
Quando o texto de estréia do seu blog é sobre ela.
Quando você só falta pedir um autógrafo de tão fã.
Só pra resumir...
Amiga, eu te amo pra caralho.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Essa oportunidade é única


Venham, venham! Estou anunciando espaços livres no meu coração.
Não no sentido amor carnal. Não. Esse não anuncio. Anuncio vagas no estacionamento apenas.
Estou aberta a ser legal com as pessoas, a deixá-las entrar na minha vida. Estou aberta a gostar. A poder passar com alguém(ns) o pouco do tempo que nos sobra - que parece muito tempo quando se está sozinha.
Não sei se estou feliz ou triste. Não sei se estou ansiosa bom ou ansiosa ruim. Não sei se estou esperançosa ou cética demais. Não me esforço pra ser nada além do que eu não seja.
No momento o que importa é que minha vida está ficando mais interessante. Não sou mais aquela pessoa resmungando que a vida foi toda filha da puta, e que várias vezes pensei em dar um fim (à filhadaputagem, não à vida) e isso a meu bronco e estúpido modo. Mas não. Eu soube esperar. Eu soube me desesperar driblando o acelerador do meu coração.
E minha vida começa a ter alguma cor. Só faltam as pessoinhas para ocupar as vagas vazias.
Falta com quem dividir isso tudo. Todo dia. Minha vida inteira me acostumei a falar da minha vida, mesmo quando não queria. Não dá para deixar de ser isso de uma hora para a outra. As vagas estão abertas até eu dizer chega.

Aiai. Estou cheia de amor para dar.

sábado, 13 de agosto de 2011

O melhor pai do mundo para essa bastarda

Waldemar Lauzimar Reginaldo Deosol Medrado de Oliveira Teófilo Silva Neto.
São nove! Vovó foi atroz.
Vulgo Vavá, negro, paraplégico, tinha 49 anos quando conheceu minha mãe, grávida de mim, ficaram amigos, ele abraçou o rojão.
Baiano, nascido em Rio de Contas, foi para São Paulo aos 18 e entrou para a Polícia do Exército.
Numa simulação de guerra, um tiro na espinha, ficou paralisado da cintura para baixo.
Aposentou-se por invalidez aos 21 anos.
Em São Paulo ele fundou a APDFB - Associação dos Paraplégicos e Deficientes Físicos do Brasil, batalhava doações de grandes empresas, e tinha um jornal.
Bitolado em preconceito, também pudera, - preto, pobre e paraplégico -, o cara deve ter passado poucas e boas.
Exagerado, colocava isso a frente, preconceito era o parâmetro para definir o caráter de alguém.
Fã da Grace Kelly, a biografia dela foi o primeiro livro que li, depois da Cartilha Caminho Suave.
Sempre soube que ele não era meu pai, uma branquela-loira-do-olho-azul, eu ouvi muito isso por aí, mas nunca fui intrépida a ponto de tocar no assunto com ele, até porque PAI É QUEM CRIA.
Chegou o dia dessa conversa.
Sensato, prudente, responsável, seguro, nobre, inabalável, magnânimo. Contou toda a história sem uma gota de julgamento para com minha mãe.
E quando eu reclamei do desamor dela, ele atribuiu ao vício, maldito vício.
Solícito que eu lidasse com aquilo como se ela tivesse uma doença, uma doença com crises, ataques.
Solícito que eu tivesse em mente que ela padecia de muito sofrimento, mesmo sem nunca ter me dito.
Ele me bastava. Mas valeu a intenção.
Nem tive muitos amigos na infância. Sabiamente curti ele ao máximo.
Me recordo de coisas que ele disse, com as palavras que ele usou, tá eu sou literal, mas tem coisa que marca.
Insuficiência renal, hemodiálise, não poder tomar água. Não desejo nem pro pior filho da puta.
Em setembro de 91 ele ficou mal de vez. Foi internado no Hospital das Clínicas, no bico do corvo.
Complicações e a retirada de um rim.
No dia 14 de outubro consegui visitá-lo, ele saiu da UTI e eu pude entrar.
Era aniversário dele. 60 anos. Fazia mais de um mês que não nos víamos. Eu sucumbia de saudade. Estava magro, aparentemente bem. Conversamos um pouco. Ele disse que logo ía sair dali.
Mas piorou e acabou voltando para UTI.
Exatos dois meses após a minha visita, ele se foi, dia 14 de dezembro. Eu tinha 11 anos.
Meu tio me contou um dia depois. Lembro como se fosse hoje.
Era domingo. Ele colocou a cadeira dele mais perto da minha. Segurou minha mão com as duas mãos. Comecei a desconfiar que era isso.
Eu já tremia quando ele falou:
- O pai morreu.
- ...
Ele foi sepultado nesse dia mesmo, no cemitério da Vila Formosa.
Dói até hoje, mas sobrevivi.
Não fico imaginando como teria sido a minha vida sem ele, prefiro acreditar que tinha que ser assim e foi assim.
Ele foi embora muito cedo, mas deu o ar da sua graça na minha vida, fez ela ter graça e me nomeou Grace.
Não posso reclamar de nada. Tenho que agradecer todos os dias em voz alta, vai que alguém escuta.
Já se passaram quase vinte anos, o próximo mês de outubro será o vigésimo mês de outubro que, no dia 14, não falo feliz aniversário para ninguém.
O mesmo ocorre com dias dos pais, tenho que me esforçar para que seja apenas mais um dia como a maioria, mais um dia para carregar nas costas. Mas nunca é.
São dias líquidos e as gotas são de saudade, uma saudade sem fim, e por isso uma saudade serena e doída.


Esse cara simpático e charmoso da foto, é o cara que soube praticar o mais sublime amor ao próximo, mesmo com todas as desgraças da vida, escolheu amar a amargar. Escolheu não julgar, escolheu perdoar, escolheu fazer diferença na vida de alguém.
A garotinha, hoje com 31 anos nas costas, se tiver parte boa, provém dele. E quando ela apronta, ainda teme em desapontá-lo.
Pai, por mais que eu tente falar ou escrever algo, me faltam palavras para mensurar o quão grata eu sou por ter tido a honra de conviver com um anjo como você.

domingo, 26 de junho de 2011

Um dia vou publicar essa pérola


Acredito em caminhos tortos, mas não em errados. Nem em certos. Apenas espertos ou burros. Para caminho não se dá nota. Porque notas têm que partir de uma certeza absoluta e ir baixando quanto mais se afasta disso. Só que ninguém sabe de nada, ninguém tem o direito de saber mais, nem a capacidade.
Ninguém entende quando choro estando tudo, tudo bem. Perdidamente apaixonada pelo entardecer vermelho. Amante da lua, até quando ela míngua.
Tem gente que sabe onde vai estar daqui a um mês e realmente sabe. Eu não sei. Até sei, mas não estou planejando isso.
Por mais que eu tenha objetivos, não traço planos, não sacrifico meu hoje em nome do amanhã, porque se amanhã eu não estiver mais por aqui não corro o risco de ficar sem os dois.
Eu prefiro ser surpreendida no meio do caminho. Mudar meu curso. Parar na metade. Voltar pra dar mais um beijo. Cortar caminho. Acender um cigarro. Me perder, pedir informação. Reparar nas placas, chutar as placas, ser pega pela polícia, ser presa, chorar. Depois rir de tudo e vir contar.

(trecho da tentativa literária que finalizei em 2006)

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Ironia hereditária


- Quem é?
- Sou eu.
- Nossa...
- Eu sei o que você estava pensando, mas estou por aqui ainda.
- Sim, eu pensei, tive quase certeza.
- Pois é. Mas eu sou vaso ruim.
- É... Isso você é mesmo.
- Rs, ou você é muito previsível ou eu te conheço muito mesmo.
- Pior que conhece.
- Pior por quê? Faz mais de 10 anos que não nos falamos, você deveria ficar feliz.
- Exatos 13 anos, fez na semana passada. Ficar feliz porquê? Gosto da minha privacidade... E você, teve mais algum filho?
- Não. Você teve né.
- Tive, menina.
- Ahhh, é a Catarina?
- Não. Julia.
- Poxa, eu tinha tanta certeza que seria Catarina se fosse menina.
- É então, eu também tinha. Mas acabei cedendo. As pessoas cedem, sabe.
- Bom. Você deve imaginar o quanto está sendo difícil te procurar depois de tanto tempo. Eu quase liguei muitas vezes, cheguei a ligar uma vez só que você não atendeu. Mas hoje decidi. Eu queria saber como você estava. Eu sempre penso em você. Eu acho que penso em você todos os dias.
- Eu também penso. Canto até parabéns nos seus aniversários.
- E eu fico imaginando aquela sua cara frustrada quando não tem 29 de fevereiro e você tem que comemorar dia primeiro de março. Seu pai não devia ter feito isso.
- Claro que devia, ele acertou em tudo que ele fez, nem depois de morto me deixou na mão.
- Eu deveria ter escrito essa conversa antes de te ligar e registrado em cartório pra poder te provar o quanto antecipo suas reações, chega a ser um dejavu.
- Irônica.
- Igual você.
- Ué, eu que posso dizer isso, é a filha que puxa a mãe, não o contrário.
- Não muda mesmo. Tu ainda fuma?
- Fumo. Você que me ensinou, lembra?
- Lembro, acho que lembro. Tem café aí?
- Tem. Você sabe onde eu moro?
- Sei.
- Então vem.
- To aqui na frente.

(pequeno memorando de um diálogo disléxico entre meu afeto e o impossível)

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Imensos detalhes


Grande parte de uma existência resumida na busca pelo domínio das situações. Cheia de razão e sozinha.
Ocorreu-me a iluminação súbita de que vivo melhor e mais feliz estando desprovida de certezas e de razões.
A verdade não existe, o que existe são versões, essa é a minha versão. Dá licença?
Quanto a tal da felicidade, conheço só de vista, cruzo com ela vez ou outra, sempre nos detalhes, é impressionante. Talvez seja esse o motivo que me faz gostar tanto deles, e das entrelinhas, e dos pormenores, e das reticências, e dos etecéteras...
Devoro todos eles em tempo real, e quando a minha cabeça que não pára encana que pode ter deixado algo passar, voltamos as duas à cena do crime, e assim fazemos a reconstituição na busca pelo detalhe perdido, vai que tem uma felicidadezinha embutida justo naquele.
A felicidade está nas pequenas coisas, já dizia não sei quem não sei onde, tome nota.
Até o mais fervoroso praticante do desapego tem algo  “indescartável”, um objeto, uma peça de roupa, um livro, algum calçado, ou um brinquedo, enfim, pensa naquela coisa que você já deveria ter dado fim há muito tempo, mas não consegue fazê-lo por uma questão de apego emocional inexplicável. Ou então pense numa música que você gostaria de cantar bem alto ou numa dança daquelas desengonçadas que você gostaria de fazer, mas não faz em público porque se sente proibido pelas regras não escritas dos bons modos. Foram tentativas de exemplificar a percepção do detalhe. Só valem para os seres sensíveis o suficiente para detectar pequenos momentos de felicidade que silenciosamente os cercam.
Pare de pensar tão grande, tão longe, tão caro, pode não dar tempo. É um desespero pela fatia do bolo, e o pior é que a maioria quando consegue uma, nem come direito, mal sente o gosto e já parte em busca da próxima fatia, afinal de contas existe um bolo inteiro a ser comido! Eu to bem contente aqui lambendo a faca e o fundinho da vela.
Nem me importo de parecer acomodada porque não sou, só não vejo propósito nessa vida que muitos ostentam orgulhosos, sem tempo para nada, agendando uma ida ao banheiro, perdendo todos os detalhes, encavalando uma coisa na outra às vezes sem nem saber direito o porquê, mas que parece ser o máximo pelo simples fato de ocupar tempo.
A genialidade não se importa com o suor do seu esforço, ela simplesmente escolhe alguns e os agracia. Portanto, meu amigo, contemple o ócio.
Gente que tem vergonha de não ter o que contar na segunda-feira, tem vergonha de assumir que não fez nada, que ficou a toa, gente que fica invisível no MSN na sexta à noite para não dar o braço a torcer... Pra quê mesmo? - Certamente não repararam nos benditos dos detalhes. Fora os "controlados" mãos de vaca, com pena de gastar dinheiro, passam vontade e guardam a grana. Não vejo utilidade melhor para o dinheiro além de torrá-lo.
É o tal negócio das certezas e das razões que abordei no início, não tenho razão, não quero mais tentar ter, não quero influenciar, suscitar a reflexão a partir de outro viés talvez, enquanto fico daqui botando reparo nos detalhes, sem dinheiro guardado nem para comprar um cotonete.
E petulantemente, como eu bem sei ser, começo a desconfiar de que sou uma boa alma.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Boliche de reis

Gente formada, pós-graduada que mal sabe escrever um e-mail, isso porque tem corretor ortográfico no Outlook, mas decerto que alguns não seriam capazes de ativá-lo sem ligar no help-desk. Ai que dó, que dó, que dó dessas fumiguinhas.
Passamos mais tempo com essas pessoas do que com a nossa família ou com quem gostaríamos de estar, não importa, com eles é que não era.
Esse mundo corporativo dá nojo, mas às vezes acontece de prestar, às vezes acontece de ter gente boa querendo gente tão boa quanto, ou até mesmo gente boa disposta a desenvolver gente quase boa, tornando-as boas sem contestação, formando assim muitas coisas boas, e neste caso, eu não deixo de continuar me sentindo um número, mas ainda assim prefiro, porque com gente boa trabalha-se mais, mas se aprende muito, e essa, sem sombra de dúvidas, é a melhor das escolas.
Daí me aparece uma tal de reestruturação, necessária sim, mas não desse jeito, pegando a liderança de uma área inteira e apertando delete, enter.
E não bastou um dia para começar a prostituição (as pessoas se prostituem no trabalho, é o que dizia uma “membra” daquele seleto grupo das boas, que trabalhou comigo e não trabalha mais exatamente porque não quis aceitar o michê), como num passe de mágica as pessoas mudam umas com as outras, e com elas mesmas, e com tudo a sua volta, uma disputa deprimente, morro de vergonha alheia, hipócritas duma figa, - eu faço parte desse mundo, mas me recuso a fazer parte dessa corja. Mato vários deles mentalmente todos os dias, com requintes de crueldade.
Um querendo foder o outro, em todos os sentidos, é gente querendo mostrar mais trabalho pra ganhar vantagem no novo quadro, muitas vezes um trabalho ruim ou feito por outrem. Eu não sou contra quem sabe se destacar e mostra seu trampo, eu faço isso quando dá, mas existe uma coisa chamada ética que é bem parecida com outra coisa chamada honestidade, será que é tão difícil incluir essas coisas nesse mundico? E não estou dando conselhos, não estou me dando bem, sou uma fudida que também pode estar com o pé na caixa econômica por conta dessa tal de reestruturação que está havendo aqui, mas a minha verdade está intacta, preservada e não abro mão, eu mudo de idéia sempre, mas a essência é uma só. Sejamos coerentes né gente?! Façavor.
Um dia vou ter cú pra me livrar desse mundo de trabalhar para os outros, mas hoje não tenho, não posso, tenho contas, casa, filha, não dá pra arriscar, mas ainda assim penso nisso.
E essas piores pessoas, essas que não demonstram quem são e quando você descobre já é tarde, já passou você ou alguém pra trás, elas não tem amigos, um que seja, - também não tenho mil amigos, sou anti-social, não saio de casa por qualquer coisa, sou serva da minha fronha com muito orgulho além de apreciar minha própria companhia, mas tenho amigos, poucos e raros e rasgados. E após uma breve observada nessas fumiguinhas, vi que elas geralmente não têm um amigo sequer, são fumiguinhas sozinhas, que dó, que dó, que dó.
E de repente as referências se foram, senti uma pontinha de “orfãzisse”, e certa tristeza, eram dos bons, lutaram juntos por um objetivo que acabou morrendo antes mesmo de chegar à praia, numa marola qualquer, eu disse tristeza pra não dizer compaixão, mas foi o que verdadeiramente senti, não pela situação financeira dessas pessoas que, sem dúvida nenhuma, é muito mais favorável do que a minha, mas sim pela frustração, pela impotência designada e porque não dizer, pela ingratidão que lhes foi prestada.
Mas eu estava errada, porque hoje, olhando pra isso aqui, eu sinto compaixão sim, por nós, que ficamos.

Link para o vídeo da “fumiguinha”, o mais visto do mês.