Grande parte de uma existência resumida na busca pelo domínio
das situações. Cheia de razão e sozinha.
Ocorreu-me a iluminação súbita de que vivo melhor e mais
feliz estando desprovida de certezas e de razões.
A verdade não existe, o que existe são versões, essa é a minha
versão. Dá licença?
Quanto a tal da felicidade, conheço só de vista, cruzo com ela
vez ou outra, sempre nos detalhes, é impressionante. Talvez seja esse o motivo
que me faz gostar tanto deles, e das entrelinhas,
e dos pormenores, e das reticências, e dos etecéteras...
Devoro todos eles em tempo real, e quando a minha cabeça
que não pára encana que pode ter deixado algo passar, voltamos as duas à cena
do crime, e assim fazemos a reconstituição na busca pelo detalhe perdido, vai
que tem uma felicidadezinha embutida justo naquele.
A felicidade está nas pequenas coisas, já dizia não sei quem não
sei onde, tome nota.
Até o mais fervoroso praticante do desapego tem algo “indescartável”,
um objeto, uma peça de roupa, um livro, algum calçado, ou um brinquedo, enfim,
pensa naquela coisa que você já deveria ter dado fim há muito tempo, mas não
consegue fazê-lo por uma questão de apego emocional inexplicável. Ou então
pense numa música que você gostaria de cantar bem alto ou numa dança daquelas
desengonçadas que você gostaria de fazer, mas não faz em público porque se
sente proibido pelas regras não escritas dos bons modos. Foram tentativas de
exemplificar a percepção do detalhe. Só valem para os seres sensíveis o
suficiente para detectar pequenos momentos de felicidade que silenciosamente os
cercam.
Pare de pensar tão grande, tão longe, tão caro, pode não dar
tempo. É um desespero pela fatia do bolo, e o pior é que a maioria quando
consegue uma, nem come direito, mal sente o gosto e já parte em busca da
próxima fatia, afinal de contas existe um bolo inteiro a ser comido! Eu to bem
contente aqui lambendo a faca e o fundinho da vela.
Nem me importo de parecer acomodada porque não sou, só não vejo
propósito nessa vida que muitos ostentam orgulhosos, sem tempo para nada,
agendando uma ida ao banheiro, perdendo todos os detalhes, encavalando uma
coisa na outra às vezes sem nem saber direito o porquê, mas que parece ser o
máximo pelo simples fato de ocupar tempo.
A genialidade não se importa com o suor do seu esforço, ela
simplesmente escolhe alguns e os agracia. Portanto, meu amigo, contemple o
ócio.
Gente que tem vergonha de não ter o que contar na segunda-feira,
tem vergonha de assumir que não fez nada, que ficou a toa, gente que fica
invisível no MSN na sexta à noite para não dar o braço a torcer... Pra quê
mesmo? - Certamente não repararam nos benditos dos
detalhes. Fora os "controlados" mãos de vaca, com pena de
gastar dinheiro, passam vontade e guardam a grana. Não vejo utilidade melhor
para o dinheiro além de torrá-lo.
É o tal negócio das certezas e das razões que abordei no início,
não tenho razão, não quero mais tentar ter, não quero influenciar, suscitar a
reflexão a partir de outro viés talvez, enquanto fico daqui botando reparo nos
detalhes, sem dinheiro guardado nem para comprar um cotonete.
E petulantemente, como eu bem sei ser, começo a desconfiar de
que sou uma boa alma.
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