sexta-feira, 3 de junho de 2011

Imensos detalhes


Grande parte de uma existência resumida na busca pelo domínio das situações. Cheia de razão e sozinha.
Ocorreu-me a iluminação súbita de que vivo melhor e mais feliz estando desprovida de certezas e de razões.
A verdade não existe, o que existe são versões, essa é a minha versão. Dá licença?
Quanto a tal da felicidade, conheço só de vista, cruzo com ela vez ou outra, sempre nos detalhes, é impressionante. Talvez seja esse o motivo que me faz gostar tanto deles, e das entrelinhas, e dos pormenores, e das reticências, e dos etecéteras...
Devoro todos eles em tempo real, e quando a minha cabeça que não pára encana que pode ter deixado algo passar, voltamos as duas à cena do crime, e assim fazemos a reconstituição na busca pelo detalhe perdido, vai que tem uma felicidadezinha embutida justo naquele.
A felicidade está nas pequenas coisas, já dizia não sei quem não sei onde, tome nota.
Até o mais fervoroso praticante do desapego tem algo  “indescartável”, um objeto, uma peça de roupa, um livro, algum calçado, ou um brinquedo, enfim, pensa naquela coisa que você já deveria ter dado fim há muito tempo, mas não consegue fazê-lo por uma questão de apego emocional inexplicável. Ou então pense numa música que você gostaria de cantar bem alto ou numa dança daquelas desengonçadas que você gostaria de fazer, mas não faz em público porque se sente proibido pelas regras não escritas dos bons modos. Foram tentativas de exemplificar a percepção do detalhe. Só valem para os seres sensíveis o suficiente para detectar pequenos momentos de felicidade que silenciosamente os cercam.
Pare de pensar tão grande, tão longe, tão caro, pode não dar tempo. É um desespero pela fatia do bolo, e o pior é que a maioria quando consegue uma, nem come direito, mal sente o gosto e já parte em busca da próxima fatia, afinal de contas existe um bolo inteiro a ser comido! Eu to bem contente aqui lambendo a faca e o fundinho da vela.
Nem me importo de parecer acomodada porque não sou, só não vejo propósito nessa vida que muitos ostentam orgulhosos, sem tempo para nada, agendando uma ida ao banheiro, perdendo todos os detalhes, encavalando uma coisa na outra às vezes sem nem saber direito o porquê, mas que parece ser o máximo pelo simples fato de ocupar tempo.
A genialidade não se importa com o suor do seu esforço, ela simplesmente escolhe alguns e os agracia. Portanto, meu amigo, contemple o ócio.
Gente que tem vergonha de não ter o que contar na segunda-feira, tem vergonha de assumir que não fez nada, que ficou a toa, gente que fica invisível no MSN na sexta à noite para não dar o braço a torcer... Pra quê mesmo? - Certamente não repararam nos benditos dos detalhes. Fora os "controlados" mãos de vaca, com pena de gastar dinheiro, passam vontade e guardam a grana. Não vejo utilidade melhor para o dinheiro além de torrá-lo.
É o tal negócio das certezas e das razões que abordei no início, não tenho razão, não quero mais tentar ter, não quero influenciar, suscitar a reflexão a partir de outro viés talvez, enquanto fico daqui botando reparo nos detalhes, sem dinheiro guardado nem para comprar um cotonete.
E petulantemente, como eu bem sei ser, começo a desconfiar de que sou uma boa alma.

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