Ela tem gosto requintado. Gosta de cinema, doce de leite,
Bukowski, Raul, patchwork, barba, piercing, marlboro, Janis, sofá,
Citybar, cachos, Side Walk, Courtney, Coca-cola, Johnny Depp, Los
Hermanos, Bjork, Puket, Almodovar, Woodstock, pacatos, Cash. Nada surpreendente
saber que ela gosta de mim.
Sem protocolos, sem blá-blá-blá, sem dedos, sem falsas
demagogias baratas, eu sou fã.
Chora quando tem que tomar soro, chora quando assiste aquelas
comédias românticas que, convenhamos, borrifam a esperança de qualquer
quase-balzaquiana-solteira.
Sofre por um amor que não tem. Homens, atenção, ela está
sozinha, avulsa, solteira, alone, encalhada, pega-ninguém, como queiram
- anyway - considere esse fato com muito mais afinco caso seja um
belo gajo barbudo, de cachos e solteiro, porque eu chuto alto. Vai lá e não vai
se arrepender, e não precisa me agradecer. Só não fala muito com ela logo pela
manhã e nunca peça um trago do cigarro - e essa parte do cigarro é plágio
mesmo (mas não tenho apreço por você, que só dá mancadas. Rá!)
Quando precisei morar foi normal, natural, necessário. E quando
deixei de morar também, o que a torna realmente diferente e enorme, e sei
disso com propriedade porque sou uma fudida que já morou muito de favor
nessa vida. E quando você sai, anulando todas as chances de pequenices, os pequenos
incontrolavelmente sofrem, por isso é sempre tumultuado sair.
Não quero convencer ninguém. Porque sei que ninguém é capaz de
genuína e convincentemente descrever alguém quando se ama esse alguém.
Não curto mulher, meu negócio é homem - sabe o vazio a ser
preenchido? Então, eu tenho, e ela também. Estranhos que nos vêem sempre
juntas, não somos um casal - e vão à merda, e se a gente fosse?
Preconceituosos duma figa!
Achei que nunca mais ia parar de chorar (e olha que não sou
dessas) quando sonhei que ela tinha morrido. Foi engraçado quando contei
do sonho (e olha que sou bem dessas).
As bolinhas, malditas bolinhas, não merecem atenção agora,
deixa.
Com ela me protejo do que existe de ruim tentando
contaminar o que tenho de bom, que não é muito, mas fica maior convivendo com
alguém assim, dono de tudo que julgo essencial num ser humano.
Nossos códigos, nossas caras, nossos flatos, nossos papeles,
nossas chinelas iguais, nossas gargalhadas de doer as bochechas, nossas
dancinhas, nossos quinze reais, vinte reais, nossos porres, nossa sorte é que
nossos cigarros não falam...
Ela sabe que podemos gritar ou ficar mudas ou qualquer
outra coisa no meio disso, que continuaremos unidas por uma linha invisível
mas extremamente forte. Um imã sem as explicações físicas de um imã.
Ela quase sempre adora minhas coisas, e eu adoro quando ela
adora as minhas coisas, porque é tudo de verdade - e se não for, por
favor, não me conte porque não aguentaria.
E eu vou pedir que ela fale “tarracha” como só ela sabe, e vou
pedir também um autógrafo, porque eu sou fã.