terça-feira, 23 de agosto de 2011

Essa oportunidade é única


Venham, venham! Estou anunciando espaços livres no meu coração.
Não no sentido amor carnal. Não. Esse não anuncio. Anuncio vagas no estacionamento apenas.
Estou aberta a ser legal com as pessoas, a deixá-las entrar na minha vida. Estou aberta a gostar. A poder passar com alguém(ns) o pouco do tempo que nos sobra - que parece muito tempo quando se está sozinha.
Não sei se estou feliz ou triste. Não sei se estou ansiosa bom ou ansiosa ruim. Não sei se estou esperançosa ou cética demais. Não me esforço pra ser nada além do que eu não seja.
No momento o que importa é que minha vida está ficando mais interessante. Não sou mais aquela pessoa resmungando que a vida foi toda filha da puta, e que várias vezes pensei em dar um fim (à filhadaputagem, não à vida) e isso a meu bronco e estúpido modo. Mas não. Eu soube esperar. Eu soube me desesperar driblando o acelerador do meu coração.
E minha vida começa a ter alguma cor. Só faltam as pessoinhas para ocupar as vagas vazias.
Falta com quem dividir isso tudo. Todo dia. Minha vida inteira me acostumei a falar da minha vida, mesmo quando não queria. Não dá para deixar de ser isso de uma hora para a outra. As vagas estão abertas até eu dizer chega.

Aiai. Estou cheia de amor para dar.

sábado, 13 de agosto de 2011

O melhor pai do mundo para essa bastarda

Waldemar Lauzimar Reginaldo Deosol Medrado de Oliveira Teófilo Silva Neto.
São nove! Vovó foi atroz.
Vulgo Vavá, negro, paraplégico, tinha 49 anos quando conheceu minha mãe, grávida de mim, ficaram amigos, ele abraçou o rojão.
Baiano, nascido em Rio de Contas, foi para São Paulo aos 18 e entrou para a Polícia do Exército.
Numa simulação de guerra, um tiro na espinha, ficou paralisado da cintura para baixo.
Aposentou-se por invalidez aos 21 anos.
Em São Paulo ele fundou a APDFB - Associação dos Paraplégicos e Deficientes Físicos do Brasil, batalhava doações de grandes empresas, e tinha um jornal.
Bitolado em preconceito, também pudera, - preto, pobre e paraplégico -, o cara deve ter passado poucas e boas.
Exagerado, colocava isso a frente, preconceito era o parâmetro para definir o caráter de alguém.
Fã da Grace Kelly, a biografia dela foi o primeiro livro que li, depois da Cartilha Caminho Suave.
Sempre soube que ele não era meu pai, uma branquela-loira-do-olho-azul, eu ouvi muito isso por aí, mas nunca fui intrépida a ponto de tocar no assunto com ele, até porque PAI É QUEM CRIA.
Chegou o dia dessa conversa.
Sensato, prudente, responsável, seguro, nobre, inabalável, magnânimo. Contou toda a história sem uma gota de julgamento para com minha mãe.
E quando eu reclamei do desamor dela, ele atribuiu ao vício, maldito vício.
Solícito que eu lidasse com aquilo como se ela tivesse uma doença, uma doença com crises, ataques.
Solícito que eu tivesse em mente que ela padecia de muito sofrimento, mesmo sem nunca ter me dito.
Ele me bastava. Mas valeu a intenção.
Nem tive muitos amigos na infância. Sabiamente curti ele ao máximo.
Me recordo de coisas que ele disse, com as palavras que ele usou, tá eu sou literal, mas tem coisa que marca.
Insuficiência renal, hemodiálise, não poder tomar água. Não desejo nem pro pior filho da puta.
Em setembro de 91 ele ficou mal de vez. Foi internado no Hospital das Clínicas, no bico do corvo.
Complicações e a retirada de um rim.
No dia 14 de outubro consegui visitá-lo, ele saiu da UTI e eu pude entrar.
Era aniversário dele. 60 anos. Fazia mais de um mês que não nos víamos. Eu sucumbia de saudade. Estava magro, aparentemente bem. Conversamos um pouco. Ele disse que logo ía sair dali.
Mas piorou e acabou voltando para UTI.
Exatos dois meses após a minha visita, ele se foi, dia 14 de dezembro. Eu tinha 11 anos.
Meu tio me contou um dia depois. Lembro como se fosse hoje.
Era domingo. Ele colocou a cadeira dele mais perto da minha. Segurou minha mão com as duas mãos. Comecei a desconfiar que era isso.
Eu já tremia quando ele falou:
- O pai morreu.
- ...
Ele foi sepultado nesse dia mesmo, no cemitério da Vila Formosa.
Dói até hoje, mas sobrevivi.
Não fico imaginando como teria sido a minha vida sem ele, prefiro acreditar que tinha que ser assim e foi assim.
Ele foi embora muito cedo, mas deu o ar da sua graça na minha vida, fez ela ter graça e me nomeou Grace.
Não posso reclamar de nada. Tenho que agradecer todos os dias em voz alta, vai que alguém escuta.
Já se passaram quase vinte anos, o próximo mês de outubro será o vigésimo mês de outubro que, no dia 14, não falo feliz aniversário para ninguém.
O mesmo ocorre com dias dos pais, tenho que me esforçar para que seja apenas mais um dia como a maioria, mais um dia para carregar nas costas. Mas nunca é.
São dias líquidos e as gotas são de saudade, uma saudade sem fim, e por isso uma saudade serena e doída.


Esse cara simpático e charmoso da foto, é o cara que soube praticar o mais sublime amor ao próximo, mesmo com todas as desgraças da vida, escolheu amar a amargar. Escolheu não julgar, escolheu perdoar, escolheu fazer diferença na vida de alguém.
A garotinha, hoje com 31 anos nas costas, se tiver parte boa, provém dele. E quando ela apronta, ainda teme em desapontá-lo.
Pai, por mais que eu tente falar ou escrever algo, me faltam palavras para mensurar o quão grata eu sou por ter tido a honra de conviver com um anjo como você.