domingo, 26 de junho de 2011

Um dia vou publicar essa pérola


Acredito em caminhos tortos, mas não em errados. Nem em certos. Apenas espertos ou burros. Para caminho não se dá nota. Porque notas têm que partir de uma certeza absoluta e ir baixando quanto mais se afasta disso. Só que ninguém sabe de nada, ninguém tem o direito de saber mais, nem a capacidade.
Ninguém entende quando choro estando tudo, tudo bem. Perdidamente apaixonada pelo entardecer vermelho. Amante da lua, até quando ela míngua.
Tem gente que sabe onde vai estar daqui a um mês e realmente sabe. Eu não sei. Até sei, mas não estou planejando isso.
Por mais que eu tenha objetivos, não traço planos, não sacrifico meu hoje em nome do amanhã, porque se amanhã eu não estiver mais por aqui não corro o risco de ficar sem os dois.
Eu prefiro ser surpreendida no meio do caminho. Mudar meu curso. Parar na metade. Voltar pra dar mais um beijo. Cortar caminho. Acender um cigarro. Me perder, pedir informação. Reparar nas placas, chutar as placas, ser pega pela polícia, ser presa, chorar. Depois rir de tudo e vir contar.

(trecho da tentativa literária que finalizei em 2006)

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Ironia hereditária


- Quem é?
- Sou eu.
- Nossa...
- Eu sei o que você estava pensando, mas estou por aqui ainda.
- Sim, eu pensei, tive quase certeza.
- Pois é. Mas eu sou vaso ruim.
- É... Isso você é mesmo.
- Rs, ou você é muito previsível ou eu te conheço muito mesmo.
- Pior que conhece.
- Pior por quê? Faz mais de 10 anos que não nos falamos, você deveria ficar feliz.
- Exatos 13 anos, fez na semana passada. Ficar feliz porquê? Gosto da minha privacidade... E você, teve mais algum filho?
- Não. Você teve né.
- Tive, menina.
- Ahhh, é a Catarina?
- Não. Julia.
- Poxa, eu tinha tanta certeza que seria Catarina se fosse menina.
- É então, eu também tinha. Mas acabei cedendo. As pessoas cedem, sabe.
- Bom. Você deve imaginar o quanto está sendo difícil te procurar depois de tanto tempo. Eu quase liguei muitas vezes, cheguei a ligar uma vez só que você não atendeu. Mas hoje decidi. Eu queria saber como você estava. Eu sempre penso em você. Eu acho que penso em você todos os dias.
- Eu também penso. Canto até parabéns nos seus aniversários.
- E eu fico imaginando aquela sua cara frustrada quando não tem 29 de fevereiro e você tem que comemorar dia primeiro de março. Seu pai não devia ter feito isso.
- Claro que devia, ele acertou em tudo que ele fez, nem depois de morto me deixou na mão.
- Eu deveria ter escrito essa conversa antes de te ligar e registrado em cartório pra poder te provar o quanto antecipo suas reações, chega a ser um dejavu.
- Irônica.
- Igual você.
- Ué, eu que posso dizer isso, é a filha que puxa a mãe, não o contrário.
- Não muda mesmo. Tu ainda fuma?
- Fumo. Você que me ensinou, lembra?
- Lembro, acho que lembro. Tem café aí?
- Tem. Você sabe onde eu moro?
- Sei.
- Então vem.
- To aqui na frente.

(pequeno memorando de um diálogo disléxico entre meu afeto e o impossível)

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Imensos detalhes


Grande parte de uma existência resumida na busca pelo domínio das situações. Cheia de razão e sozinha.
Ocorreu-me a iluminação súbita de que vivo melhor e mais feliz estando desprovida de certezas e de razões.
A verdade não existe, o que existe são versões, essa é a minha versão. Dá licença?
Quanto a tal da felicidade, conheço só de vista, cruzo com ela vez ou outra, sempre nos detalhes, é impressionante. Talvez seja esse o motivo que me faz gostar tanto deles, e das entrelinhas, e dos pormenores, e das reticências, e dos etecéteras...
Devoro todos eles em tempo real, e quando a minha cabeça que não pára encana que pode ter deixado algo passar, voltamos as duas à cena do crime, e assim fazemos a reconstituição na busca pelo detalhe perdido, vai que tem uma felicidadezinha embutida justo naquele.
A felicidade está nas pequenas coisas, já dizia não sei quem não sei onde, tome nota.
Até o mais fervoroso praticante do desapego tem algo  “indescartável”, um objeto, uma peça de roupa, um livro, algum calçado, ou um brinquedo, enfim, pensa naquela coisa que você já deveria ter dado fim há muito tempo, mas não consegue fazê-lo por uma questão de apego emocional inexplicável. Ou então pense numa música que você gostaria de cantar bem alto ou numa dança daquelas desengonçadas que você gostaria de fazer, mas não faz em público porque se sente proibido pelas regras não escritas dos bons modos. Foram tentativas de exemplificar a percepção do detalhe. Só valem para os seres sensíveis o suficiente para detectar pequenos momentos de felicidade que silenciosamente os cercam.
Pare de pensar tão grande, tão longe, tão caro, pode não dar tempo. É um desespero pela fatia do bolo, e o pior é que a maioria quando consegue uma, nem come direito, mal sente o gosto e já parte em busca da próxima fatia, afinal de contas existe um bolo inteiro a ser comido! Eu to bem contente aqui lambendo a faca e o fundinho da vela.
Nem me importo de parecer acomodada porque não sou, só não vejo propósito nessa vida que muitos ostentam orgulhosos, sem tempo para nada, agendando uma ida ao banheiro, perdendo todos os detalhes, encavalando uma coisa na outra às vezes sem nem saber direito o porquê, mas que parece ser o máximo pelo simples fato de ocupar tempo.
A genialidade não se importa com o suor do seu esforço, ela simplesmente escolhe alguns e os agracia. Portanto, meu amigo, contemple o ócio.
Gente que tem vergonha de não ter o que contar na segunda-feira, tem vergonha de assumir que não fez nada, que ficou a toa, gente que fica invisível no MSN na sexta à noite para não dar o braço a torcer... Pra quê mesmo? - Certamente não repararam nos benditos dos detalhes. Fora os "controlados" mãos de vaca, com pena de gastar dinheiro, passam vontade e guardam a grana. Não vejo utilidade melhor para o dinheiro além de torrá-lo.
É o tal negócio das certezas e das razões que abordei no início, não tenho razão, não quero mais tentar ter, não quero influenciar, suscitar a reflexão a partir de outro viés talvez, enquanto fico daqui botando reparo nos detalhes, sem dinheiro guardado nem para comprar um cotonete.
E petulantemente, como eu bem sei ser, começo a desconfiar de que sou uma boa alma.