- Quem é?
- Sou eu.
- Nossa...
- Eu sei o que você estava pensando, mas
estou por aqui ainda.
- Sim, eu pensei, tive quase certeza.
- Pois é. Mas eu sou vaso ruim.
- É... Isso você é mesmo.
- Rs, ou você é muito previsível ou eu te
conheço muito mesmo.
- Pior que conhece.
- Pior por quê? Faz mais de 10 anos que não
nos falamos, você deveria ficar feliz.
- Exatos 13 anos, fez na semana passada. Ficar feliz porquê?
Gosto da minha privacidade... E você, teve mais algum filho?
- Não. Você teve né.
- Tive, menina.
- Ahhh, é a Catarina?
- Não. Julia.
- Poxa, eu tinha tanta certeza que seria
Catarina se fosse menina.
- É então, eu também tinha. Mas acabei cedendo. As pessoas
cedem, sabe.
- Bom. Você deve imaginar o quanto está
sendo difícil te procurar depois de tanto tempo. Eu quase liguei muitas vezes,
cheguei a ligar uma vez só que você não atendeu. Mas hoje decidi. Eu queria
saber como você estava. Eu sempre penso em você. Eu acho que penso em você
todos os dias.
- Eu também penso. Canto até parabéns nos seus aniversários.
- E eu fico imaginando aquela sua cara
frustrada quando não tem 29 de fevereiro e você tem que comemorar dia primeiro
de março. Seu pai não devia ter feito isso.
- Claro que devia, ele acertou em tudo que ele fez, nem depois
de morto me deixou na mão.
- Eu deveria ter escrito essa conversa antes
de te ligar e registrado em cartório pra poder te provar o quanto antecipo suas
reações, chega a ser um dejavu.
- Irônica.
- Igual você.
- Ué, eu que posso dizer isso, é a filha que puxa a mãe, não o
contrário.
- Não muda mesmo. Tu ainda fuma?
- Fumo. Você que me ensinou, lembra?
- Lembro, acho que lembro. Tem café aí?
- Tem. Você sabe onde eu moro?
- Sei.
- Então vem.
- To aqui na frente.
(pequeno memorando de um diálogo disléxico entre meu afeto e o
impossível)
Um comentário:
Bom.
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