Waldemar Lauzimar Reginaldo Deosol Medrado de Oliveira Teófilo
Silva Neto.
São nove! Vovó foi atroz.
Vulgo Vavá, negro, paraplégico, tinha 49 anos quando conheceu
minha mãe, grávida de mim, ficaram amigos, ele abraçou o rojão.
Baiano, nascido em Rio de Contas, foi para São Paulo aos 18 e
entrou para a Polícia do Exército.
Numa simulação de guerra, um tiro na espinha, ficou paralisado
da cintura para baixo.
Aposentou-se por invalidez aos 21 anos.
Em São Paulo ele fundou a APDFB - Associação dos Paraplégicos e
Deficientes Físicos do Brasil, batalhava doações de grandes empresas, e tinha
um jornal.
Bitolado em preconceito, também pudera, - preto, pobre e
paraplégico -, o cara deve ter passado poucas e boas.
Exagerado, colocava isso a frente, preconceito era o parâmetro
para definir o caráter de alguém.
Fã da Grace Kelly, a biografia dela foi o primeiro livro que li,
depois da Cartilha Caminho Suave.
Sempre soube que ele não era meu pai, uma
branquela-loira-do-olho-azul, eu ouvi muito isso por aí, mas nunca fui
intrépida a ponto de tocar no assunto com ele, até porque PAI É QUEM CRIA.
Chegou o dia dessa conversa.
Sensato, prudente, responsável, seguro, nobre, inabalável,
magnânimo. Contou toda a história sem uma gota de julgamento para com minha mãe.
E quando eu reclamei do desamor dela, ele atribuiu ao vício,
maldito vício.
Solícito que eu lidasse com aquilo como se ela tivesse uma
doença, uma doença com crises, ataques.
Solícito que eu tivesse em mente que ela padecia de muito
sofrimento, mesmo sem nunca ter me dito.
Ele me bastava. Mas valeu a intenção.
Nem tive muitos amigos na infância. Sabiamente curti ele ao
máximo.
Me recordo de coisas que ele disse, com as palavras que ele
usou, tá eu sou literal, mas tem coisa que marca.
Insuficiência renal, hemodiálise, não poder tomar água. Não
desejo nem pro pior filho da puta.
Em setembro de 91 ele ficou mal de vez. Foi internado no
Hospital das Clínicas, no bico do corvo.
Complicações e a retirada de um rim.
No dia 14 de outubro consegui visitá-lo, ele saiu da UTI e eu
pude entrar.
Era aniversário dele. 60 anos. Fazia mais de um mês que não nos
víamos. Eu sucumbia de saudade. Estava magro, aparentemente bem.
Conversamos um pouco. Ele disse que logo ía sair dali.
Mas piorou e acabou voltando para UTI.
Exatos dois meses após a minha visita, ele se foi, dia
14 de dezembro. Eu tinha 11 anos.
Meu tio me contou um dia depois. Lembro como se fosse hoje.
Era domingo. Ele colocou a cadeira dele mais perto da minha.
Segurou minha mão com as duas mãos. Comecei a desconfiar que era isso.
Eu já tremia quando ele falou:
- O pai morreu.
- ...
Ele foi sepultado nesse dia mesmo, no cemitério da Vila
Formosa.
Dói até hoje, mas sobrevivi.
Não fico imaginando como teria sido a minha vida sem ele,
prefiro acreditar que tinha que ser assim e foi assim.
Ele foi embora muito cedo, mas deu o ar da sua graça na minha
vida, fez ela ter graça e me nomeou Grace.
Não posso reclamar de nada. Tenho que agradecer todos os dias em
voz alta, vai que alguém escuta.
Já se passaram quase vinte anos, o próximo mês de outubro será o
vigésimo mês de outubro que, no dia 14, não falo feliz aniversário para ninguém.
O mesmo ocorre com dias dos pais, tenho que me esforçar
para que seja apenas mais um dia como a maioria, mais um dia para carregar nas
costas. Mas nunca é.
São dias líquidos e as gotas são de saudade, uma saudade sem
fim, e por isso uma saudade serena e doída.

Esse cara simpático e charmoso da foto, é o cara que soube
praticar o mais sublime amor ao próximo, mesmo com todas as desgraças da vida,
escolheu amar a amargar. Escolheu não julgar, escolheu perdoar, escolheu fazer
diferença na vida de alguém.
A garotinha, hoje com 31 anos nas costas, se tiver parte boa,
provém dele. E quando ela apronta, ainda teme em desapontá-lo.
Pai, por mais que eu tente falar ou escrever algo, me faltam
palavras para mensurar o quão grata eu sou por ter tido a honra de conviver com
um anjo como você.

Um comentário:
Nem sabia que esse blog existia e me deparo com essas coisas...lindas, obvio.
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